Watchmen

19:04 Phelipe Malek 0 Comments

Primeira capa da HQ no Brasil



Watchmen, escrito por Alan Moore e ilustrado por Dave Gibbons, é uma série em quadrinhos da DC Comics que revolucionou os quadrinhos por lidar com uma temática mais madura e realista, impondo o conceito de que super-heróis não precisam de super-poderes e super-vilões. Consagrando o estilo Graphics Novel, foi o primeiro a despertar o interesse do público adulto por quadrinhos, que antes era visto como algo infanto-juvenil.




Trama

A trama de Watchmen é situada em uma América alternativa de 1985 na guerra fria, com os EUA e União Soviética quase entrando em uma guerra nuclear. A mesma trama envolve os episódios vividos por um grupo de super-heróis, do passado e do presente, e os eventos que circulam o misterioso assassinato de um deles. Watchmen retrata problemas éticos e psicológicos. Uma adaptação para o cinema foi lançada 6 de março de 2009.




Na realidade de Watchmen, Richard Nixon teria conduzido os EUA a ganhar a Guerra do Vietnã e por conta disso, teria permanecido no poder por muito tempo. Este fato e muitas outras diferenças entre o mundo verdadeiro e o mundo retratado nos quadrinhos, como por exemplo, os carros elétricos serem a realidade da indústria dos automóveis e o petróleo não ser mais a fonte de energia, derivaria na existência daquele cenário um personagem conhecido como Dr.Manhattan (O personagem mais complexo de Watchmen), que é um ser dotado de poderes especiais, os quais o levam a possuir um vasto controle sobre a matéria e a energia, elevando-o a um estado de homem-deus.




Neste mundo também existiram quadrinhos de super-heróis no final de 1930, inclusive do Superman, os quais seriam a principal fonte de inspiração para que um dos personagens da série viesse a se tornar um combatente do crime (O primeiro Nite Owl). Então as revistas deste gênero teriam deixado de existir e foram substituídas por quadrinhos de piratas (devido ao fato de agora existirem heróis de verdade). Dr.Manhattan, o único a possuir poderes de verdade (como explodir ou desmontar objetos e até mesmo pessoas - pois controla os átomos), foi o primeiro da nova era de super-heróis mais sofisticados que durou nos anos 60, até a promulgação da lei Keene em 1977, implantada em resposta a greve da polícia e a revolta da população contra os vigilantes que agiam acima da lei.




O grupo conhecido como Crimebusters, se dispunha a combater o crime na cidade de Nova York. A Lei Keene exigia que todos os "aventureiros fantasiados" se registrassem no governo. A maioria dos vigilantes resolveu se aposentar, alguns revelando sua identidade secretas para faturar com a atenção da mídia, outros, como o Comediante e o Dr.Manhattan, continuaram a trabalhar sobe a supervisão e o controle do governo. O Vigilante conhecido como Rorschach, entretanto, passou a operar como um herói renegado e fora-da-lei, sendo sempre perseguido pela polícia.


A Riqueza de um universo

Watchmen conta uma intensa história de conspiração e mistério que se mantém até a última edição. Mas não é só no Thriller que está a riqueza das Graphics Novel.
Alan Moore e Dave Gibbons criaram um universo inteiro, cheio de detalhes, signos e tantos níveis de compreensão, que é comum ainda ser surpreendido na 3ª ou 4ª releitura.
Apesar do relógio do apocalipse se aproximando da meia-noite ser um forte símbolo, a série acabou sendo representada pela imagem do Smiley face, a carinha feliz manchada de sangue, que é um ícone perfeito para o motivo da série: a desconstrução do inocente universo dos super-heróis em uma fria e cruel realidade.
O Smiley pode ser visto por toda a série como um tema recorrente, desde em faíscas de cabeça para baixo nos hidrantes elétricos, até na cratera de Galle em Marte (que realmente existe).
O espirro de sangue também se repete, às vezes como água, tinta ou mancha. Sempre presente em elementos significativos da trama, como um aviso, como uma exclamação.



Moore e Gibbons também mergulharam em uma viagem metalinguística inesquecível em Contos do Cargueiro Negro.

Através de um jornaleiro de uma banca de jornal de esquina, o leitor é apresentado ao cotidiano das pessoas comuns, indo e vindo, discutindo manchetes de jornais, seus medos e angústias. Em meio a tudo isso, um rapaz lê uma revista em quadrinhos



A história dentro da história funciona como um artifício de sincronia entre fantasia e realidade, descrevendo paralelos entre o marinheiro perdido e as motivações e psiques dos vigilantes de Watchmen, o que também é uma brincadeira com o próprio universo.

Ideia de Dave Gibbons, em um mundo em que heróis mascarados existem de verdade, a fantasia dos quadrinhos fugiria deste tema já saturado pela imprensa e medos populares, desviando-se para outros mitos, como por exemplo, histórias de piratas.

Watchmen sempre foi considerado por muitos como uma obra não filmável. O próprio Alan Moore defende isso até hoje. Aliás, essa foi, em espírito, sua intenção declarada ao escrever uma história repleta de pequenos e minuciosos detalhes, easter eggs e múltiplos níveis de narração e compreensão.


O fenômeno justifica-se não só pelos seus méritos técnicos, mas como por influência que pode ser vista até hoje nas HQs Os Supremos, Alias (a detetive ex-Vingadora), Poder Supremo e outros selos adultos da Marvel, e também fora delas, como por exemplo em Lost (influência declarada pelos produtores), Heroes, Os Incríveis e na narrativa realista dos novos filmes de Batman, do Christopher Nolan.

Este é o valor de Watchmen. Embora possa parecer estranho para quem não se interessa por super-heróis, certamente essa série em quadrinhos transcende os círculos de seu meio, como demonstração do pináculo do talento artístico na criação de uma verdadeira obra-prima literária. Mesmo que esteja disfarçada com roupas coloridas e cuecas por cima das calças.